Homossexual,
o padre Alison não tem função como pároco. Foto: Olga Vlahou
A
partir da primeira decisão do STF, foi criada, informalmente até
agora, uma frente religiosa pela diversidade sexual, que reúne
integrantes de diversas igrejas: batistas, metodistas, anglicanos,
luteranos, presbiterianos, católicos e pentecostais. Coordenador do
grupo, o metodista Anivaldo Padilha (pai do ministro da Saúde,
Alexandre Padilha) diz que a homossexualidade é hoje um dos temas
que mais dividem as igrejas, tanto evangélicas quanto católicas.
“Quem alimenta o preconceito são as lideranças. Os fiéis
manifestam dificuldade em obter respostas, porque no convívio com
amigos, colegas ou mesmo parentes que sejam homossexuais não veem
diferença.”
Mais:
segundo Padilha, a proporção de homossexuais entre os evangélicos
é bastante similar à da sociedade brasileira como um todo. Sua
convicção vem da pesquisa O Crente e o Sexo, do Bureau de Pesquisa
e Estatística Cristã, entidade que possui o maior banco de dados
com e-mails de evangélicos brasileiros – mais de 1,6 milhão. Na
pesquisa, foram ouvidos pela internet 6.721 solteiros evangélicos de
todo o País, entre 16 e 60 anos. Os resultados, divulgados em junho
deste ano: 5,02% dos evangélicos tiveram uma experiência
homossexual e 10,69% disseram desejar experimentar ter relações com
pessoas do mesmo sexo.
Uma
pesquisa feita em 2009 pelo Ministério da Saúde com os brasileiros
em geral apontou que 7,6% das pessoas- entre 15 e 64 anos haviam tido
relações com o mesmo sexo na vida. Quer dizer, a diferença entre
os hábitos sexuais dos crentes e do resto da população é quase
nula. “A questão não é teológica”, argumenta Padilha. “O
que existe é que esse tema tem sido utilizado politicamente pela
direita brasileira. Como não existe mais o comunismo, conseguem
manipular a opinião pública assim. Eles têm o direito de expressar
opiniões, mas não se pode impor ao Estado conceitos de pecado que
não dizem respeito aos que professam outras religiões, ou nenhuma.”

De
acordo com historiadores, a posição religiosa em relação à
homossexualidade mudou ao longo dos séculos: de mais tolerante para
menos. O americano John Boswell, pesquisador da Universidade Yale que
morreu de Aids- aos 47 anos em 1994 e que dedicou a vida acadêmica a
investigar a homossexualidade relacionada ao cristianismo, afirmava
que a Igreja Católica não condenou as relações entre o mesmo sexo
até o século XII. Ao contrário: o historiador, contestado por
alguns e aclamado por outros, revelou no livro O Casamento entre
Semelhantes – Uniões entre pessoas do mesmo sexo na Europa
pré-moderna (1994) a existência de manuscritos que comprovam a
celebração de rituais matrimoniais religiosos durante toda a Idade
Média por sacerdotes católicos e ortodoxos para consagrar uniões
homossexuais.
Nos
80 manuscritos descobertos por Boswell sobre as bodas gays entre os
primeiros cristãos, invocava-se como protetores os santos católicos
Sérgio e Baco, tidos como homossexuais. Celebrados no dia 7 de
outubro, São Sérgio e São Baco aparecem juntos em toda a
iconografia religiosa a partir do século IV depois de Cristo e
atualmente são objeto de homenagem de vários artistas plásticos
ligados ao movimento LGBT. Soldados do imperador romano Maximiano,
foram ambos martirizados por se recusar a entrar em um templo e
adorar Júpiter. Baco, flagelado com chicotadas, morreu primeiro. Uma
crônica, provavelmente do século- X, conta que Sérgio “com o
coração enfermo pela perda de Baco, chorava e gritava: ‘te
separaram de mim, foste ao Céu e me deixaste só na Terra, sem
companhia nem consolo’”.
Em
fevereiro deste ano, o pesquisador e professor de Literatura Carlos
Callón, da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, foi
premiado pelo ensaio Amigos e Sodomitas: A configuração da
homossexualidade na Idade Média, onde conta a história de Pedro
Díaz e Muño Vandilaz, protagonistas do primeiro matrimônio
homossexual da Galícia, em 16 de abril de 1061. No documento, o
casal compromete-se a morar juntos e se cuidar mutuamente “todos os
dias e todas as noites, para sempre”. Segundo Callón, há muitos
relatos semelhantes, inclusive com rituais religiosos similares aos
heterossexuais, com a diferença de que as bênçãos faziam alusão
ao salmo 133 (“Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os
irmãos”), ao amor de Jesus e João ou a São Sérgio e São Baco.
Por: Michel Franklin